olhar-câmera
Em uma ocasião, dancei sem parar; em outra, ri de algo que você disse. A risada não foi um gesto plenamente espontâneo, e sim resultado de sua apurada técnica em fazer suas modelos posarem. Eu fiz o gesto que você me pediu. Há coerção em sua técnica, mas ela também me acomoda, como ser presa por cintos a um colchão macio. O sorriso que exibo na fotografia é tão largo que me lembra das fotos que as famílias dos mortos utilizam em funerais, tentando lembrar da pessoa amada em seu ápice de felicidade. E a fotografia é a própria morte, como diria o francês Roland Barthes. Eu estou na fase da rebeldia adolescente em que julgo ser cansativo deixar os franceses sempre nos dizerem o que pensar. Acho que na masculinidade barthiana há um certo medo em perder o controle de si, e nesse sentido a experiência de ser fotografado é certamente desconcertante. Eu acho muito agradável. Gosto de ser pega na rede dêitica da fotógrafa, acompanhar o manuseio hábil de sua máquina e então ver uma imagem que não é apenas minha, mas também objeto de sua intencionalidade. Repito, fiz o gesto que você me pediu. Admiro os artistas por sua capacidade de arranjar as contingências em nome de sua obra. É também uma fantasia de controle, um sonho em moldar a realidade com suas próprias mãos. De novo, me agrada ser meio para a sua obra, me agrada ser moldada. Aqui, Barthes acerta: é agora infinitamente reprodutível um instante de manipulação artística que já deixou de existir. Eu já passei por dois outros cortes de cabelo. O acessório que uso no pescoço já está ficando velho. A faixa que uso no peito já me parece apertada para meu busto em constante expansão. A fotografia já parece anacrônica, e no entanto adorna o plano de fundo do meu telefone.


lindo pra krl. chorei lendo